Detalhes que fazem a diferença no V LeilãoShow da Farol

 

Antônio Arney com a obra de sua escolha para o LeilãoShow - foto de Gilson Camargo

 

 

Colagem com Rejeitos, 2014 - foto de Gilson Camargo
 

Breve parágrafo a partir da série Colagem com Rejeitos, de Antônio Arney

Por Margit Leisner

 

Enquanto existir nas leis e nos costumes uma condenação social que cria infernos artificiais em plena civilização, juntando ao destino - que é divino por natureza - um fatalismo que provém dos homens; enquanto não forem resolvidos os três problemas do século : - a degradação do homem pela pobreza, o aviltamento da mulher pela fome, a atrofia das crianças pelas trevas; enquanto continuar em certas classes a asfixia social, ou por outras palavras e sob um ponto de vista mais claro: - enquanto houver no mundo ignorância e miséria, os livros desta natureza não são de todo inúteis.

 

Hauteville-Haus - 1 de Janeiro de 1862 

 

Antônio Arney, 89, é o pintor por trás das formas acentuadas que vemos na série de colagens produzidas com rejeitos. Feitas a partir de materiais como madeira, metais e papel, essas obras despertam de imediato uma estranha familiaridade. A memória que antecipa cômodos, maçanetas, portais - vai aos poucos se re-arranjando em distâncias e relevos, em detalhes, fragmentos, em micro e macro intenções pictóricas. O que antes parecia familiar está agora em outro lugar. Está em uma outra forma de olhar.

É próprio da poesia que a tenra surpresa esteja - imponderável! - cultivada no pressuposto: a obra aqui em questão quer dar-se a ver e ponto. E ela é generosa em vezes que diz e de tão variadas formas; sem perder nem por um instante a integridade que porta, como um estandarte em sua fachada. Como no livro primeiro de Fantina, em Miséraveis de Victor Hugo, o artista nos faz lembrar, a cada vez, que a página que antecede o livro é um mantra.

 

Sobre o artista:

Antonio Arney dos Santos nasceu em Piraquara, PR em 1926. Pintor. Cedo se interessa por artes, tendo como exemplo seu próprio pai, pintor, fotógrafo e marceneiro. Começa a pintar em 1956 como autodidata, na cidade de Curitiba. Mantém contato com a Galeria Cocaco, ponto de encontro dos artistas modernos do Paraná nos anos 60. Em 1979, orienta o ateliê de madeira, estudo e pesquisa de materiais no Centro de Criatividade da Fundação Cultural de Curitiba. A partir de 1989, orienta o Curso de Colagem na Arte, no ateliê de ensino do Museu Alfredo Andersen. Vive e trabalha em Curitiba.