Domingo, 06 Setembro 2015 00:00

lailana krinski

 

Lailana Krinski, Curitiba-PR, 1986. Trabalha como artista, crítica de arte e educadora. Bacharel em Artes Visuais, pela Universidade Tuiuti do Paraná, em 2008. Especialista em História da Arte Moderna e Contemporânea pela Escola de Belas Artes do Paraná, em 2012. Coordenadora do projeto LAB#, laboratório de crítica de arte e publicação de 2010 a 2014. Conheça aqui mais sobre a produção da artista: http://cargocollective.com/lailanakrinski

 

 

Domingo, 06 Setembro 2015 00:00

Túnel de Transições - Juan Parada

Arco Verde, vista da instalação / foto de gilson camargo

 

Invólucro 03 (2013). Fibra de vidro e grimpa de araucária, 26 x 22 x 11cm / foto de gilson camargo
Invólucro 06, 2014 Fibra de vidro e musgo esfagno – 46 x 30 x 25 cm

 

Possíveis continentes – sobre Arco vivo, de Juan Parada

Daniela Vicentini

Todas as coisas que vejo e faço ganham sentido num espaço da mente em que reina a mesma calma que existe aqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo farfalhar das folhas. No momento em que me concentro para refletir, sempre me encontro neste jardim neste mesmo horário, em sua augusta presença, apesar de prosseguir sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos… cada vez que fechamos os olhos no meio do alvoroço ou da multidão, podemos nos refugiar aqui vestidos com quimonos de seda para avaliar aquilo que estamos vivendo, fazer as contas, contemplar a distância.

Ítalo Calvino, As cidades invisíveis, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 95.

Pingo (2012), dos primeiros trabalhos de Juan Parada, mostra um paralelepípedo de cerâmica que recebe em apenas uma de suas faces maiores uma ação diferente. Desenhando no espaço uma gota que se deposita sobre ela, e esculpindo a gota como se esta fosse uma imagem congelada, o artista torna água a superfície e nela reverberam ondas circulares que se propagam. A face lisa do bloco cede lugar a uma imagem – como uma fotografia que se torna objeto. Instaura-se uma superfície por assim dizer orgânica naquele bloco geométrico, por meio de uma imagem que faz menção a um instante congelado no tempo – um vir a ser.

Em algumas obras da série “A memória da matéria” (2012), nas quais aparecem paredes construídas como parte do trabalho, ou ainda prismas deitados no chão – aqui já com uma apropriação do espaço da arquitetura e a participação corpórea do espectador – também em apenas uma das superfícies a geometria cede lugar a várias espécies de plantas – uma simbiose – exuberantes como num jardim. A presença de uma superfície agora literalmente orgânica – viva – e a referência à temporalidade, no tácito vir a ser de toda planta, conversam com a densidade de geometrias desenhadas, das paredes dos trabalhos e também da arquitetura em que se abrigam.

 

Podemos, portanto, ressaltar que o artista põe em obra um diálogo entre uma geometria consistente, elementos da natureza e uma temporalidade silenciosa de devir.

Para a exposição Túnel de Transições, na Galeria Farol, Juan Parada concebe a instalação Arco vivo (2015). Trata-se da insinuação de um túnel, totalmente permeável, que vai se configurando no espaço por meio da agregação de pequenas peças, como móbiles dispostos de maneira a juntos desenharem um lugar oscilante de passagem.

Conforme adentramos o túnel, o desenho das peças se modifica – uma oval alongada, outra achatada e um círculo – e o espaço entre elas torna-se menor, adensando o conjunto no momento final da passagem, em arco. Ocorre uma transformação da forma em três tempos.

Em trabalhos mais bidimensionais do artista, ocorre algo semelhante (Topografia Sonora): são placas em que o processo de transformação de uma forma em outra configura o desenho do relevo, como se a forma contasse sua própria história enquanto configura a superfície (Topografia Sonora). Acompanhamos com os olhos uma metamorfose em uma sequência que parece fazer sentido. Temos como que um processo no tempo que se torna visível no espaço.

Isso é algo propriamente percebido em uma planta: enquanto se desenvolve, ela vai deixando em seu caule todas as folhas (galhos, espinhos e tudo o mais) que foram nascendo em seu crescimento. Diferentemente do que ocorre com os animais e o ser humano, podemos refazer com os olhos toda a história da planta – o seu devir vai se fixando no espaço.

Em Arco vivo, Juan cria um ambiente em ato, concretiza a imagem de algo que parece estar em processo formativo. Tudo é transição: o túnel, o nosso caminhar e o desenho das peças a direcionar vetores flutuantes no espaço. Outra vez, a clareza de formas essenciais geométricas, a terra, a planta e o vir a ser das coisas são postos em obra. No entanto, agora o todo apenas se insinua: são pequenos módulos escultóricos que se expandem e se concentram com o intuito de formar algo – uma temporalidade no espaço.

Da exuberância das muitas espécies de trabalhos anteriores, agora o mundo vegetal está presente com apenas uma planta. As cerâmicas de terracota são como que rasos contentores para a terra – continentes. E cada uma recebe uma muda de planta suculenta pendente que, no entanto, imprevisivelmente, sai de dentro da terra por um vão dos objetos e se direciona para baixo rumo ao chão. São módulos suspensos feitos de um recipiente, terra e planta – Juan já havia desenhado peças semelhantes em algumas esculturas autônomas e na instalação Teto verde (2015), com louças brancas.

Elemento de foco do olhar, em sua posição inusitada, a planta potencializa uma fragilidade. Mesmo que dentro das espécies esta seja uma bem adaptável a mudanças climáticas, resistente, na maneira como aparece ali, pendente num caule solitário, surgindo debaixo da louça, oscilante no espaço, evidencia-se sua delicada suscetibilidade.

Dos primeiros aparecimentos do mundo vegetal na história da arte está a presença, em finais do século 12, do jardim. O jardim perfeito, onde vivem Madonas e anjos, é o paraíso, palavra de origem persa cujo significado é “espaço rodeado de muros”. Se o espaço do jardim representava um lugar de proteção do mundo aterrorizante da natureza desconhecida, com a pintura de paisagem que nasce no século 15 – e mostra terras enigmáticas, com os italianos; céus e terras longínquos, com os holandeses; naturezas domesticadas ou atemorizantes, pitorescas ou sublimes, com os ingleses; florestas pulsantes, dos germânicos; luzes e sombras coloridas e em movimento, com os impressionistas franceses, para citar alguns – o mundo que amedronta passa a ser conhecido, sobem-se montanhas (lugar da morada de monstros), ultrapassam-se os mares rumo a novos continentes. Com a perspectiva, que tem amplo desenvolvimento junto com a pintura de paisagem, define-se um sujeito que se posta diante de um objeto. Um sujeito que gradativamente se aparta da natureza e por isso pode observá-la como se estivesse diante de uma janela. Com a técnica, pode-se também dominar a natureza.

O jardim é, portanto, para o Marco Polo de Ítalo Calvino, um refúgio, talvez um imaginário espaço da mente em que reina a calma, para esse conquistador que segue sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos – e quem não segue?

É também refúgio da multidão, lugar em que podemos avaliar aquilo que estamos vivendo, fazer as contas, contemplar a distância.

Há em Arco vivo uma atmosfera silenciosa e acolhedora como a de um jardim – todas as plantas são boas companheiras. Mas se o que advém da história que segue com a conquista do espaço da perspectiva é assunto nosso, muitos são os artistas que têm trazido em sua arte a urgência de um novo estar do sujeito no mundo.

Um artista da arte povera, Giovanni Anselmo, pega dois blocos de granito, um maior e um muito menor, e os enlaça com um fio de cobre. Entre eles, quase que esmagado, um pé verde de alface: com vida, o volume do vegetal cria um elo entre as rochas, contudo, quando as folhas secam, a tensão do fio diminui, o espaço aumenta, o bloco pequeno despenca e tudo se desfaz (sem título ou Struttura che mangia, 1968). Muitos foram os artistas que trouxeram, nesses anos da década de 1960, todas as coisas existentes como matéria possível para a arte, impossível citar poucos exemplos.

Mas, no âmbito da obra de Juan Parada, vale relembrar a Earth room (1977), de Walter de Maria. Um amplo apartamento, em Manhattan, preenchido com terra a uma altura de 56 centímetros, que só pode ser contemplado por um vão de porta. Assim, toda aquela quantidade de terra dimensiona palpavelmente a geometria da arquitetura de um espaço urbano. Nosso olhar se estende horizontalmente na terra deitada, como num vasto campo. Vemos a distância, não caminhamos sobre ela. Regada periodicamente para mantê-la viva, ali, suspensa na cidade, a terra pulsa possibilidades.

 

 

Terça, 28 Julho 2015 00:00

Rimon Guimarães

 

Elementos chave no alfabeto visual de Rimon Guimarães são a face das têmporas em "T", cabeças e as entidades pictóricas que são figuras-im-permanentes-na-superfície-do-papel. Surgem como anfitriões em linhas-portais para um mergulho épico. Seja no vôo contínuo de pássaros, nos timbres e sonoridades sugeridos ou até mesmo nas linhas que passam da escrita ao desenho para retornar à superfície; o que sê nas curvas e nas cores desta mostra é o tempo-espaço feito à mão. É através da narrativa do artista que ficamos sabendo das altitudes e dos corpos que habitam a morada. Ou que se hospedam, como que em viagem, deitados e a flanar. Em sobrevôo na cama ou pelas paredes do intestino que porta um cisne, três cabeças, um beijo e o trombone. Aqui é sabido que sempre há vaga pra quem não está à sós. 

A exposição de Rimon Guimarães reúne desenhos, pintura e gravura produzidas desde 2008 até 2014. Uma série inédita de fotografias do artista na tentativa do vôo. São, em sua maioria, obras realizadas na escala íntima do atelier do artista que é também conhecido pelas pinturas em murais no espaço urbano. Em viagens, Rimon surge. 
 
 
 
 
 
A exposição, com curadoria de Keila Kern e Margit Leisner, transpõe para o espaço da galeria arranjos e formas encontradas em conversas e tardes vividas no atelier do artista. Nesse sentido, a exposição produz modos de afirmar questões poéticas e a vocação experimental impressas na produção de Samuel Dickow. Sua pintura é eloquente e nessa montagem é apresentada como polifonia: a adição simultânea de eventos pictóricos. 
 
Samuel Dickow, 1987, é natural da cidade de Curitiba, local onde reside. Atualmente trabalha em diálogo com a pintura e a fotografia para formalizar questões poéticas e produzir experimentações. Pensa sua pesquisa a partir da interdependência entre a imagem fotográfica e a pintura para refletir no objeto de arte percepções a cerca da temporalidade da imagem e seu conteúdo histórico. Sua produção é dividida em diversas séries de experimentações com a linguagem pictórica, reflexo de uma pesquisa que se pensa como “uma imersão no mundo sensível e sua emersão no mundo das representações”. 
 

A Farol Arte e Ação é interessada em contextos relacionados às práticas contemporâneas. É uma iniciativa independente dedicada à noção de mobilidade (ex. mobilidade urbana, trânsito entre linguagens, etc.), espaço de recepção, distribuição e comunicação através da arte. O projeto da galeria é parte do agenciamento Farol Arte e Ação, que joga luz sobre o pensamento contemporâneo à partir de uma perspectiva local.

 

                                         

                                                                                                                            foto: gilson camargo

 

 

Presente

A partir de 2017 a Farol se volta para o pensamento errante, formas nômades, performance e práticas site-specific.

Acompanhe as nossas iniciativas!

 

 

Histórico

Estabelecida em 2014 no complexo da Bicicletaria Cultural - um centro infra-estrutural para ciclistas e eventos culturais no centro da cidade de Curitiba, Brasil - e em vizinhança com a Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu – a CicloIguaçu, a Galeria Farol realizou uma série de exposições e eventos alinhados com práticas contemporâneas e dinâmicas específicas daquele ambiente urbano entre elas 6 edições do LeilãoShow, evento que propõe uma dramaturgia crítica do negócio da arte (art business). A Farol foi fundada por Margit Leisner, artista,etc.

 

 

 Bem vindos! Welcome! Bienvenue! Wilkomen! Moshi Moshi!

 

 
Segunda, 23 Março 2015 00:00

samuel dickow

 

O óbvio improvável

 

 

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Segunda, 23 Março 2015 00:00

rimon guimarães

 
 
  Rimon Guimarães
 
 

 

Segunda, 23 Março 2015 00:00

O ÓBVIO IMPROVÁVEL

O ÓBVIO IMPROVÁVEL reúne e coloca em conversa a produção de 7 artistas com práticas distintas. A exposição foi proposta como ponto de ignição para o leque de atividades que se desdobram a partir daqui.  A exposição foi organizada por Margit Leisner e Keila Kern. Montagem de Fer Stancik. Confira!

Quinta, 26 Fevereiro 2015 00:00

Artistas

Rimon Guimarães

Samuel Dickow

 

Pierre lapalu

Quarta, 25 Fevereiro 2015 00:00

Antiarte, Não-arte, Anarte

 

Sábado, 03/10 às 16h 

Palestra de Alex Hamburger sobre recentes pesquisas de linguagens do artista ainda não nomeadas e em fase de investigação.

  

ALEX HAMBURGER - (*1948 -           )

Desde o início de suas atividades, nos anos 80 do século passado, A.H. teve seus interesses voltados para as possibilidades de fusão e entrecruzamento de linguagens, desenvolvendo trabalhos em Poesia Verbal, Visual e Sonora, poemas-objeto, livros de artista, performances, instalações, etc. Participou de diversas exposições coletivas e individuais, tendo publicado 5 livros de poesia experimental, um de epistolar (em parceria com o artista Ricardo Basbaum), 3 cd’s de poesia sonora e em torno de 30 realizações em arte performance, algumas com a artista Márcia X., com quem desenvolveu um profícua parceria ao longo de 8 anos. Teima e vive no Rio de Janeiro – RJ.

Alguns de seus trabalhos figuram em destacados acervos de instituições de arte contemporânea, como a Printed Matter Bookstore – Nova York; Compendium of Contemporary Fine Prints – Hamburgo, ICA (Institute of Contemporary Arts) – Londres.