Publish 07 Outubro 2015

Por Keila Kern 

Com um título que não esconde nem dá nada, “EXPOSIÇÃO TOTAL” parte do questionamento sobre identidade e hibridismo cultural que se encontra no núcleo do modernismo curitibano, e pretende criar uma reflexão sobre quais foram os processos que levaram a arte curitibana a se tornar hoje uma referência internacional. Numa inversão de papéis, a arte curitibana agora é canibalizada pelos artistas estrangeiros que se apropriam de seu simbolismo, de suas estratégias e de sua estética. Fomos direto pro internacional, nem passamos pelo nacional. Creio necessário que não haja mais que alusão. Nomear um objeto é suprimir três quartas partes do gozo de um poema. Isso é Mallarmé.

Fiquei parada nos títulos de duas pinturas: “Para amanhã sem falta” e “Uma hora mais ou menos”. Elas não estão nesta exposição, são dois trabalhos de Antonio Arney realizadas em 1966, apenas dez anos após a morte de Jackson Pollock. Esses títulos soam como algo que dizemos todos os dias e para cada “amanhã sem falta” prometido sabemos que muito hoje já se perdeu. Estas pinturas foram feitas com arranjos de madeira e ferro e em várias das madeiras podemos ver os traços deixados por cupins que já não estão lá.
- Uma hora mais ou menos é um tempo apertado. Tem que ser agora? Não estou vendo nenhum futuro imediato por aqui, tentemos de outro modo, vamos voltar alguns passos, quem sabe a gente consiga lá atrás abrir uma nova galeria e sair em outra câmara - disse o pequeno cupim de madeira seca.

Allan Kaprow escreveu que para a arte que vinha depois de Jackson Pollock só haveriam duas saídas. A primeira, continuar a pintar variando a estética de Pollock sem no entanto conseguir abandoná-lo ou superá-lo. A segunda, desistir completamente de fazer pinturas. Para Kaprow, mesmo Pollock não morrera sem antes sofrer este problema (da arte pós-Pollock). Seus últimos anos vividos, uns cinco, o impediram de “morrer no auge” e foram de enfrentamento com a mesma espécie de ressaca que estamos nós. Mas Kaprow propõe uma saída para a ultima alternativa - a que sugere parar de pintar - uma continuidade da arte pelo envolvimento no cerne da “arte como um grupo de fatos concretos vistos pela primeira vez”. Uma saída que começa também pelo legado de Pollock: o modo cego, o caráter direto, a crença calada em tudo o que se faz. Eu não pinto a natureza, eu sou a natureza.

Dizer que o artista descobriu coisas como marcas, gestos, tinta, cores, dureza, suavidade, fluidez, pausa, espaço, o mundo, a vida e a morte, pode soar ingênuo. Todo artista digno de tal nome “descobriu” essas coisas. Annette Skarbek, Cristina Jardanovsky, Julia Ishida, Livia Piantavini, André Mendes, Antonio Arney e Samuel Dickow, já descobriram essas coisas e têm pinturas tão diferentes que dificilmente serão atingidas pelas mesmas palavras. Eles estão na Galeria Zilda Fraletti e na Farol Galeria de Arte e Ação Alex Hamburger, Ana Bellenzier, Fabio Noronha, Henrique Jakobi e André Mendes realizarão ocupações temporárias: palestras, oficinas, encontros e performances onde serão tratados assuntos relativos ao contexto produtivo, receptivo e distributivo da arte e acontecerão no espaço da Farol Galeria de Arte e Ação [ver programação]. Laura Miranda, Monica Infante, Eduardo Freitas, Juliane Fuganti, Bernadete Amorim e Traplev participam com vídeo, esculturas, objetos e publicações: a parte visível e em transito de operações complexas. A presente seleção de artistas e obras foi pautada pelos interesses particulares desses artistas. Nada de transformar uma contingência histórica em eternidade, nada de imobilizar o mundo.

 

 

                                                                                                    foto Anderson Lago 2015 

 

 

Forte Abraço De

por Margit Leisner

 

                                                

                 * carta publicada no catálogo da XX bienal internacional de curitiba 

 

Participam da exposição na galeria Farol Arte e Ação:

Alex Hamburger

André Mendes

Anna Belenzier

Antônio Arney

Bernadete Amorin

Cristina Jardanovsky

Fabio Noronha

Henrique Jakobi

Lívia Piantavini

Samuel Dickow

Traplev

 

foto Youmi Kori 2015

 

 

Saiba mais no espaço Coo_Zine aqui mesmo no website da FAROL / Follow the programm at Coo_Zine here on the website

Publish 06 Setembro 2015
Arco Verde, vista da instalação / foto de gilson camargo

 

Invólucro 03 (2013). Fibra de vidro e grimpa de araucária, 26 x 22 x 11cm / foto de gilson camargo
Invólucro 06, 2014 Fibra de vidro e musgo esfagno – 46 x 30 x 25 cm

 

Possíveis continentes – sobre Arco vivo, de Juan Parada

Daniela Vicentini

Todas as coisas que vejo e faço ganham sentido num espaço da mente em que reina a mesma calma que existe aqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo farfalhar das folhas. No momento em que me concentro para refletir, sempre me encontro neste jardim neste mesmo horário, em sua augusta presença, apesar de prosseguir sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos… cada vez que fechamos os olhos no meio do alvoroço ou da multidão, podemos nos refugiar aqui vestidos com quimonos de seda para avaliar aquilo que estamos vivendo, fazer as contas, contemplar a distância.

Ítalo Calvino, As cidades invisíveis, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 95.

Pingo (2012), dos primeiros trabalhos de Juan Parada, mostra um paralelepípedo de cerâmica que recebe em apenas uma de suas faces maiores uma ação diferente. Desenhando no espaço uma gota que se deposita sobre ela, e esculpindo a gota como se esta fosse uma imagem congelada, o artista torna água a superfície e nela reverberam ondas circulares que se propagam. A face lisa do bloco cede lugar a uma imagem – como uma fotografia que se torna objeto. Instaura-se uma superfície por assim dizer orgânica naquele bloco geométrico, por meio de uma imagem que faz menção a um instante congelado no tempo – um vir a ser.

Em algumas obras da série “A memória da matéria” (2012), nas quais aparecem paredes construídas como parte do trabalho, ou ainda prismas deitados no chão – aqui já com uma apropriação do espaço da arquitetura e a participação corpórea do espectador – também em apenas uma das superfícies a geometria cede lugar a várias espécies de plantas – uma simbiose – exuberantes como num jardim. A presença de uma superfície agora literalmente orgânica – viva – e a referência à temporalidade, no tácito vir a ser de toda planta, conversam com a densidade de geometrias desenhadas, das paredes dos trabalhos e também da arquitetura em que se abrigam.

 

Podemos, portanto, ressaltar que o artista põe em obra um diálogo entre uma geometria consistente, elementos da natureza e uma temporalidade silenciosa de devir.

Para a exposição Túnel de Transições, na Galeria Farol, Juan Parada concebe a instalação Arco vivo (2015). Trata-se da insinuação de um túnel, totalmente permeável, que vai se configurando no espaço por meio da agregação de pequenas peças, como móbiles dispostos de maneira a juntos desenharem um lugar oscilante de passagem.

Conforme adentramos o túnel, o desenho das peças se modifica – uma oval alongada, outra achatada e um círculo – e o espaço entre elas torna-se menor, adensando o conjunto no momento final da passagem, em arco. Ocorre uma transformação da forma em três tempos.

Em trabalhos mais bidimensionais do artista, ocorre algo semelhante (Topografia Sonora): são placas em que o processo de transformação de uma forma em outra configura o desenho do relevo, como se a forma contasse sua própria história enquanto configura a superfície (Topografia Sonora). Acompanhamos com os olhos uma metamorfose em uma sequência que parece fazer sentido. Temos como que um processo no tempo que se torna visível no espaço.

Isso é algo propriamente percebido em uma planta: enquanto se desenvolve, ela vai deixando em seu caule todas as folhas (galhos, espinhos e tudo o mais) que foram nascendo em seu crescimento. Diferentemente do que ocorre com os animais e o ser humano, podemos refazer com os olhos toda a história da planta – o seu devir vai se fixando no espaço.

Em Arco vivo, Juan cria um ambiente em ato, concretiza a imagem de algo que parece estar em processo formativo. Tudo é transição: o túnel, o nosso caminhar e o desenho das peças a direcionar vetores flutuantes no espaço. Outra vez, a clareza de formas essenciais geométricas, a terra, a planta e o vir a ser das coisas são postos em obra. No entanto, agora o todo apenas se insinua: são pequenos módulos escultóricos que se expandem e se concentram com o intuito de formar algo – uma temporalidade no espaço.

Da exuberância das muitas espécies de trabalhos anteriores, agora o mundo vegetal está presente com apenas uma planta. As cerâmicas de terracota são como que rasos contentores para a terra – continentes. E cada uma recebe uma muda de planta suculenta pendente que, no entanto, imprevisivelmente, sai de dentro da terra por um vão dos objetos e se direciona para baixo rumo ao chão. São módulos suspensos feitos de um recipiente, terra e planta – Juan já havia desenhado peças semelhantes em algumas esculturas autônomas e na instalação Teto verde (2015), com louças brancas.

Elemento de foco do olhar, em sua posição inusitada, a planta potencializa uma fragilidade. Mesmo que dentro das espécies esta seja uma bem adaptável a mudanças climáticas, resistente, na maneira como aparece ali, pendente num caule solitário, surgindo debaixo da louça, oscilante no espaço, evidencia-se sua delicada suscetibilidade.

Dos primeiros aparecimentos do mundo vegetal na história da arte está a presença, em finais do século 12, do jardim. O jardim perfeito, onde vivem Madonas e anjos, é o paraíso, palavra de origem persa cujo significado é “espaço rodeado de muros”. Se o espaço do jardim representava um lugar de proteção do mundo aterrorizante da natureza desconhecida, com a pintura de paisagem que nasce no século 15 – e mostra terras enigmáticas, com os italianos; céus e terras longínquos, com os holandeses; naturezas domesticadas ou atemorizantes, pitorescas ou sublimes, com os ingleses; florestas pulsantes, dos germânicos; luzes e sombras coloridas e em movimento, com os impressionistas franceses, para citar alguns – o mundo que amedronta passa a ser conhecido, sobem-se montanhas (lugar da morada de monstros), ultrapassam-se os mares rumo a novos continentes. Com a perspectiva, que tem amplo desenvolvimento junto com a pintura de paisagem, define-se um sujeito que se posta diante de um objeto. Um sujeito que gradativamente se aparta da natureza e por isso pode observá-la como se estivesse diante de uma janela. Com a técnica, pode-se também dominar a natureza.

O jardim é, portanto, para o Marco Polo de Ítalo Calvino, um refúgio, talvez um imaginário espaço da mente em que reina a calma, para esse conquistador que segue sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos – e quem não segue?

É também refúgio da multidão, lugar em que podemos avaliar aquilo que estamos vivendo, fazer as contas, contemplar a distância.

Há em Arco vivo uma atmosfera silenciosa e acolhedora como a de um jardim – todas as plantas são boas companheiras. Mas se o que advém da história que segue com a conquista do espaço da perspectiva é assunto nosso, muitos são os artistas que têm trazido em sua arte a urgência de um novo estar do sujeito no mundo.

Um artista da arte povera, Giovanni Anselmo, pega dois blocos de granito, um maior e um muito menor, e os enlaça com um fio de cobre. Entre eles, quase que esmagado, um pé verde de alface: com vida, o volume do vegetal cria um elo entre as rochas, contudo, quando as folhas secam, a tensão do fio diminui, o espaço aumenta, o bloco pequeno despenca e tudo se desfaz (sem título ou Struttura che mangia, 1968). Muitos foram os artistas que trouxeram, nesses anos da década de 1960, todas as coisas existentes como matéria possível para a arte, impossível citar poucos exemplos.

Mas, no âmbito da obra de Juan Parada, vale relembrar a Earth room (1977), de Walter de Maria. Um amplo apartamento, em Manhattan, preenchido com terra a uma altura de 56 centímetros, que só pode ser contemplado por um vão de porta. Assim, toda aquela quantidade de terra dimensiona palpavelmente a geometria da arquitetura de um espaço urbano. Nosso olhar se estende horizontalmente na terra deitada, como num vasto campo. Vemos a distância, não caminhamos sobre ela. Regada periodicamente para mantê-la viva, ali, suspensa na cidade, a terra pulsa possibilidades.

 

 

Publish 28 Julho 2015
A exposição, com curadoria de Keila Kern e Margit Leisner, transpõe para o espaço da galeria arranjos e formas encontradas em conversas e tardes vividas no atelier do artista. Nesse sentido, a exposição produz modos de afirmar questões poéticas e a vocação experimental impressas na produção de Samuel Dickow. Sua pintura é eloquente e nessa montagem é apresentada como polifonia: a adição simultânea de eventos pictóricos. 
 
Samuel Dickow, 1987, é natural da cidade de Curitiba, local onde reside. Atualmente trabalha em diálogo com a pintura e a fotografia para formalizar questões poéticas e produzir experimentações. Pensa sua pesquisa a partir da interdependência entre a imagem fotográfica e a pintura para refletir no objeto de arte percepções a cerca da temporalidade da imagem e seu conteúdo histórico. Sua produção é dividida em diversas séries de experimentações com a linguagem pictórica, reflexo de uma pesquisa que se pensa como “uma imersão no mundo sensível e sua emersão no mundo das representações”. 
 
Publish 28 Julho 2015

 

Elementos chave no alfabeto visual de Rimon Guimarães são a face das têmporas em "T", cabeças e as entidades pictóricas que são figuras-im-permanentes-na-superfície-do-papel. Surgem como anfitriões em linhas-portais para um mergulho épico. Seja no vôo contínuo de pássaros, nos timbres e sonoridades sugeridos ou até mesmo nas linhas que passam da escrita ao desenho para retornar à superfície; o que sê nas curvas e nas cores desta mostra é o tempo-espaço feito à mão. É através da narrativa do artista que ficamos sabendo das altitudes e dos corpos que habitam a morada. Ou que se hospedam, como que em viagem, deitados e a flanar. Em sobrevôo na cama ou pelas paredes do intestino que porta um cisne, três cabeças, um beijo e o trombone. Aqui é sabido que sempre há vaga pra quem não está à sós. 

A exposição de Rimon Guimarães reúne desenhos, pintura e gravura produzidas desde 2008 até 2014. Uma série inédita de fotografias do artista na tentativa do vôo. São, em sua maioria, obras realizadas na escala íntima do atelier do artista que é também conhecido pelas pinturas em murais no espaço urbano. Em viagens, Rimon surge. 
 
 
 
 
 

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